Dica de roteiro internacional: do Brasil ao Uruguai, uma viagem inesquecível sobre duas rodas

O jornalista gaúcho Éder Kurz, 46 anos, de Montenegro, posa para foto ainda em território brasileiro | Foto: acervo pessoal

Gastronomia, cultura, futebol… O Uruguai é um dos destinos preferidos dos brasileiros por vários motivos. Muitos preferem ir de carro, como a advogada Fernanda Passini, de Novo Hamburgo (clique aqui para ler a matéria). Outros optam por picape, motorhome…. Mas e de moto, quais são os desafios de uma longa viagem como essa?

Pois o jornalista gaúcho Éder Kurz, 46 anos, de Montenegro, e o designer paulista Ben Ami Scopinho, 55, residente em Florianópolis, encararam essa aventura. Éder foi com sua Honda NC 750x ano 2022, equipada com motor de dois cilindros que desenvolve 58,6 cv de potência e 7,03 kgfm de torque, acoplado ao câmbio de 6 marchas. Já Ben Ami foi na sua Triumph Bonneville Bobber 1200cc, também ano 2022, dotada de motor de dois cilindros que gera 77 cv de potência e 10,8 kgfm de torque, acoplado ao câmbio de 6 velocidades. Apesar das diferenças de estilo, as duas motos andam no mesmo pique, o que é muito importante em um passeio desses. A seguir, a dupla dá todas as dicas para quem também deseja fazer essa viagem, desde o que é necessário na fase de planejamento até as melhores rotas, preços de combustível, hotéis e restaurantes. Confira o relato feito pelo Éder. 

O designer catarinense Ben Ami Scopinho, 55, com sua Triumph Bonneville Bobber 1200cc | Foto: acervo pessoal

Antes da viagem, um misto de alegria e ansiedade

Viajar de moto para fora do País era um sonho que se tornou realidade. Na manhã de 7 de agosto, eu, Éder Kurz, e o meu amigo Ben Ami Scopinho cruzamos a fronteira Brasil e Uruguai com um misto de alegria e ansiedade. Alegria pelo início de uma aventura e ansiedade pelo desconhecido. Eu numa Honda NC 750x e o Ben Ami numa Triumph Bonneville Bobber 1200cc.   

Mesmo após praticamente um mês de preparação e pesquisas para que nada saísse errado, subimos nas motos com mais questionamentos do que respostas. Como realmente estão as estradas uruguaias? Será que teríamos problemas nas motos? Algum pneu vai furar? Os hotéis que pesquisamos para pernoitar terão vaga? Vamos fazer reserva com antecedência ou não? Vai chover? No Uruguai estará mais frio do que no Brasil? Como seremos recebidos pelos uruguaios nos restaurantes e postos de combustíveis? E o dinheiro, os preços, o idioma, a comida… 

Todos esses e outros questionamentos foram se dissipando a cada quilômetro percorrido. E, após 2.318 km em seis dias, passando pelo litoral uruguaio – inclusive pela curiosa ponte de Laguna Gárzon – até Montevidéu e depois Colônia del Sacramento, retornamos ao Brasil carregando histórias da estrada e dos uruguaios – e algumas lembranças na bagagem.  

O início da jornada

Em Montenegro, motos e bagagens prontas para a jornada | Foto: Éder Kurz/acervo pessoal

A preparação para a viagem de moto ao Uruguai começou com uma reunião por vídeo. Como eu moro no Rio Grande do Sul e o meu amigo e companheiro de estrada reside em Santa Catarina, essa foi a melhor forma de alinharmos datas e roteiro. Foram duas conversas por vídeo e inúmeras mensagens por WhatsApp. Consultamos dois corretores de seguros sobre os procedimentos e documentação para entrar no Uruguai, e pedimos indicação de hotéis a um amigo uruguaio do Ben Ami que mora em Montevidéu. O nosso contato no Uruguai também nos ajudou com uma questão fundamental: levar peso uruguaio ou dólar? Como não levamos cartão de crédito, decidimos trocar o Real por dólar. 

Quanto à documentação, pegamos a Carta Verde com validade para seis dias – com custo de R$ 90,00 cada uma e impressa em duas vias –, e também contratamos seguro saúde válido pelo mesmo período – no valor de R$ 190,00 para cada um. Nossa documentação também incluiu identidade, passaporte, carteira de habilitação e documentos das motos impresso. Sobre a bagagem, optamos pelo “mínimo do mínimo”, com duas peças de roupas para o frio, já incluindo camisa e calças térmicas, além da capa de chuva. Ben Ami também levou aquecedores de mãos descartáveis, colocados dentro das luvas – ele aprovou o produto, eu não gostei e fiquei somente com as luvas de inverno.

Ainda sobre preparação para a viagem, levamos as motos para revisão. Nosso plano era fazer uma viagem sem sustos. A minha NC foi revisada na Honda Valecross em Montenegro, e a Bobber do Ben Ami na Triumph em Florianópolis. Na bagagem, também levamos algumas poucas chaves, o básico, e produtos para o caso de algum pneu furar, como macarrão e spray tapa-furos. Eu também carrego sempre na moto um minicompressor digital de encher pneus. 

Com as motos revisadas, acertados roteiro, documentos, bagagens e datas – e com um plano de viagem montado em um arquivo –, decidimos que o Ben Ami viria de Florianópolis para Montenegro no dia 4 de agosto. Optamos entrar no Uruguai pelo Chuí. Porém, a chuva no começo do mês causou uma certa frustração que, aliada à ansiedade pela partida, nos deixou com receio de botar as motos na estrada – a segurança sempre está em primeiro lugar. Entretanto, como a previsão do tempo indicava sol no Uruguai, adiamos em um dia o começo da aventura. Na terça-feira, 5 de agosto, Bem Ami saiu de casa e, após 530 km, estava em Montenegro. 

Enfim, a partida

Eram 7h30 de quarta-feira, 6 de agosto, quando colocamos a Honda NC 750x e a Triumph Bonneville Bobber na estrada. Nossa primeira “pernada” juntos na viagem Brasil–Uruguai 2025 tinha cerca de 570 km até Chuí. Cruzamos por Porto Alegre e percorremos a BR-116 – boa parte da rodovia está duplicada e em bom estado. Em Pelotas pegamos a BR-471 e tivemos a nossa primeira surpresa da viagem: a beleza da Estação Ecológica do Taim. Situada nos municípios de Santa Vitória dos Palmares e de Rio Grande, o local abrange uma área de 32 mil hectares e fica próximo da fronteira com o Uruguai. Andar de moto pela rodovia e olhar a imensidão de terras e águas nos dois lados é assustador e, ao mesmo tempo, desafiador. 

Parada para descanso em Santa Vitória do Palmar, distante 20 km da fronteira | Foto: Éder Kurz/acervo pessoal

Após parada para fotos, seguimos viagem e resolvemos pernoitar em Santa Vitória do Palmar, distante 20 km da fronteira. Escolhemos o Hotel Brasil, no Centro da cidade. Local simples, mas com garagem coberta e café da manhã. Na manhã de quinta, 7 de agosto, trocamos câmbio em Chuí e pilotamos até a aduana para fazer a migração. Apresentei minha identidade – também pode ser o passaporte –, a atendente tirou uma foto minha e pediu a placa da moto. Em menos de um minuto, ao me devolver a identidade, sorriu e disse: “Bienvenido a Uruguay”. Surpreendido pela rapidez, perguntei se estava tudo ok, “posso seguir viagem?” Ela respondeu “sí”. 

Foi a senha para, enfim, subirmos nas motos e pilotarmos pela primeira vez na Ruta 9 uruguaia. 

Na aduana uruguaia, migração dos aventureiros foi rápida e simplificada | Foto: Éder Kurz/acervo pessoal

Frio, chuva e vento

Cruzar a fronteira entre Brasil e Uruguai ampliou a ansiedade e trouxe o primeiro desafio da jornada: a chuva, o frio e o vento. Para motociclistas experientes em viagens pelo continente, essas três questões do tempo não são problemas. Mas esse não é o nosso caso. Era a nossa primeira viagem para fora do País. Entretanto, quando escolhemos agosto para realizar a viagem, sabíamos que teríamos de nos preocupar com o frio e o vento do litoral uruguaio. Esperávamos não ter a companhia da chuva, mas ela veio na manhã de quinta.

Paramos as motos na beira da estrada. Eu coloquei a capa de chuva. Ben Ami, que estava com uma jaqueta de couro e uma calça que repele água, ambos suficientes quando se trata de uma garoa, preferiu seguir e apostar que a chuva iria parar – e foi o que aconteceu. Pilotamos até Punta del Diablo, um pequeno vilarejo turístico e de pescadores à beira do Oceano Atlântico. Como aquela garoa insistente nos acompanhava até então e no horizonte o tempo parecia melhorar, não ficamos mais que dez minutos no local. 

Na Ruta 5, uma parada para registrar as belas paisagens à beira da rodovia | Foto: Éder Kurz/acervo pessoal

Seguimos pela Ruta 9 e paramos para comer algo e abastecer as motos em um posto nas proximidades de Rocha, cidade uruguaia com cerca de 26 mil habitantes. Comprovamos, então, como o litro da gasolina é caro no Uruguai: 78 pesos uruguaios (valor no dia 7 de agosto de 2025), cerca de R$ 10,60 o litro. 

Completamos os tanques das motos e, já com o sol dando as caras, partimos rumo à ponte Laguna Garzón, na Ruta 10. Conhecer a curiosa ponte que forma de anel estava no nosso plano de viagem. Porém, confesso que eu esperava mais do local. Não encontramos ninguém por lá e, além disso, a ponte é menor do que pensava – ou pelo menos que eu imaginava ao assistir a vídeos nas redes sociais. Ainda assim, valeu conhecê-la, principalmente por seu formato de círculo totalmente diferente do que já tínhamos visto.

Em Montevidéu, um passeio para conhecer o Centro da cidade | Foto: Éder Kurz/acervo pessoal

Contemplamos o local, tiramos fotos e partimos rumo à capital do Uruguai. Voltamos para a Ruta 9 que, a partir de Rocha, está praticamente toda duplicada. Fora alguns pontos em obras, a rodovia é ampla, com acostamento, sinalizada e em bom estado. Contudo, preste atenção nos limites de velocidade. Em alguns pontos, principalmente nos entroncamentos e acessos a vilarejos, a máxima é de 60 km/h. Porém, na maior parte você pode andar até 90 km/h e, em alguns pontos, até 110 km/h. Ainda sobre as estradas, em boa parte delas andamos sozinhos. Nos deparamos com poucos carros e caminhões nas rodovias uruguaias. 

Após cerca de 380 km, já no fim da tarde de quinta – no horário de pico no trânsito – chegamos a Montevidéu. Ficamos hospedados no hotel London Palace, bem próximo do centro histórico, local com garagem coberta e café da manhã. O valor: 60 dólares na primeira noite (quinta) e, como a sexta-feira conta como fim de semana, o valor sobe para 70 dólares – para conversão: valor da moeda nos dias 7 e 8 de agosto de 2025.  

Montevidéu e Colônia del Sacramento

Rambla, o famoso calçadão à beira-mar com 22 km de extensão ao longo do Rio da Prata | Foto: Éder Kurz/acervo pessoal

Como planejado, tiramos a sexta-feira, 8 de agosto, para conhecer um pouco da capital uruguaia. Deixamos as motos na garagem do hotel e fomos caminhar pela cidade – essa é, acredito, a melhor forma de conhecer uma comunidade. De manhã, percorremos uma parte da Rambla, famoso calçadão à beira-mar com 22 km de extensão ao longo do Rio da Prata. Estava frio, ventava muito, mas o dia era de céu limpo e sol – sorte a nossa! Almoçamos na Cantina Romesco, um pequeno restaurante e cafeteria no centro histórico. Pagamos 13 dólares cada um por um prato de massas, com pão e sopa de entrada.  

Caminhamos por parte da “Avenida 18 de Julio”, na região central da cidade, e contemplamos as ruas arborizadas de plátanos. Conhecemos as praças Cagancha, Juan Pedro Fabini e Independência – essa última onde está o Mausoléu de José Gervasio Artigas, monumento dedicado ao herói nacional e pai da nacionalidade uruguaia. Cruzamos a “Puerta de la Ciudadela”, porta de entrada construída pelos espanhóis no século XVIII para proteger a cidade de invasões inglesas e portuguesas. Hoje é um dos pontos turísticos de Montevidéu. Também conhecemos a Constitution Plaza [Praça da Constituição] e visitamos o Museu Histórico Cabildo de Montevidéo. Caminhamos por ruas próximas ao porto e visitamos o Mercado del Puerto, um local cheio de restaurantes e muitas lojas no entorno. Por causa do preço – em média de 2 mil pesos uruguaios, quase R$ 300,00 por pessoa – não foi dessa vez que comemos uma parrilla uruguaia. 

Construções seculares típicas de Colônia del Sacramento | Foto: Éder Kurz/acervo pessoal

Terminamos o dia bebendo uma cerveja uruguaia no La Pasiva, um restaurante tradicional da cidade, junto à Praça da Constituição, que serve, entre outros pratos, o “pancho” (cachorro-quente) – pão com salsicha ou linguiça acompanhado de uma mostarda especial. Admito que, para o meu gosto, bateu uma saudade do cachorro-quente brasileiro – que me desculpem os uruguaios.

No sábado, dia 9 de agosto, tomamos café no hotel e nos despedimos de Montevidéu com um passeio com as motos por ruas do porto, à beira do Rio da Prata. Foi o dia mais frio de nossa viagem. Marcava 6°C pela manhã e tivemos que colocar a jaqueta de chuva para espantar o frio. Partimos para Colônia del Sacramento pela Ruta 1, rodovia duplicada, bem sinalizada e em bom estado de conservação. A chegada a Sacramento é digna de cinema. A rodovia é de pista simples, em bom estado, com Palmeiras nos dois lados, formando um caminho ímpar até a cidade turística do Uruguai. 

Em Colônia del Sacramento, um registro em frente ao Farol de Colônia | Foto: Éder Kurz/acervo pessoal

Em Colônia, ficamos hospedados no Beltran Hotel, local simples, mas com café da manhã e garagem coberta. O valor: 75 dólares. Preço acima do que procurávamos, mas o único hotel com quarto disponível naquele dia. O bom é que está localizado no centro histórico e, em dois minutos, estávamos no Farol de Colônia e na Muralla de la Ciudad Vieja, ruínas da antiga fortificação erguida por portugueses no século VXII para proteger a cidade. 

Caminhar pelas ruas de pedra de Colônia, observar as antigas edificações e a muralha, é uma aula de história e encantamento. Um passeio que vale muito – está aí um local que pretendo retornar um dia. Uma dica de ouro: caso você esteja planejando visitar a cidade, tente fazer isso durante a semana por causa do movimento. No nosso caso, como era sábado – como já disse, os hotéis estavam lotados – havia filas em lojinhas, cafés e restaurantes. Também esteja com o bolso preparado. Além da hospedagem, comer e até mesmo tomar um cafezinho pode custar caro. Naquele dia, por exemplo, pagamos quase 100 pesos uruguaios por um café médio – na conversão para o Real, cerca de R$ 12,00.

Até mais, Uruguai!

Depois de um dia de encantamento por Colônia del Sacramento, o domingo, 10 de agosto, iniciou cedo com os primeiros quilômetros de retorno ao Brasil. Abastecemos as motos e voltamos para a estrada. Primeiro pegamos a Ruta 1 novamente até acessarmos a Ruta 2, em Rosario. Passamos pelas pequenas Florencio Sánchez, onde andamos pela Ruta 12 e, depois, pegamos a Ruta 57 até Trinidad. Novamente pilotamos por estradas boas, porém de pista simples, e na companhia de belas paisagens dos campos uruguaios. Alguns locais mais habitados, outros onde somente se observavam campos e animais.

Na Ruta 9, longas retas e cenários únicos aguardam os viajantes | Foto: Éder Kurz/acervo pessoal

Em Trinidad, acessamos a Ruta 14 e pilotamos até Durazno para chegar na Ruta 5. A partir de então, cruzamos por vilarejos e cidades como Paso de los Toros, local com cerca de 15 mil habitantes que ostenta uma estátua gigante de um toro na entrada da cidade. Já era metade da tarde quando paramos em Tacuarembó, município com cerca de 90 mil habitantes. Estávamos com uma baita fome, pois a única refeição que tínhamos feito no dia era o café da manhã. Após gastar gasolina por ruas da cidade, paramos em um bar onde encontramos o nosso “almoço”: pão com salame e água com gás. 

Restabelecidos, voltamos para a estrada e chegamos no fim da tarde de domingo em Rivera. Passamos no setor de migração da aduana, cruzamos a fronteira e nos hospedamos no Verde Plaza Hotel, no Centro de Santana do Livramento. Estávamos exaustos após 536 km e com um aprendizado da estrada: devíamos ter parado para almoçar e descansar, evitando um desgaste desnecessário no último dia em solo uruguaio. 

Na segunda-feira, 11 de agosto, o destino era um só: casa. Para o retorno, pilotamos pelas BRs 158, 293 (rodovia com alguns pontos em péssimo estado), 116, 448 e 386. Após mais 645 km, estávamos de volta a Montenegro. Ben Ami ainda tinha mais 530 km de volta a Florianópolis, o que ele fez no dia seguinte. 

A viagem Brasil–Uruguai 2025 estava concluída com sucesso e jamais será esquecida. Não tivemos problemas nas motos, nenhum pneu furado, nada de perrengues nas estradas. Encontramos pessoas atenciosas e, mesmo com a dificuldade do idioma, mostraram-se dispostas a nos atender e nos ajudar. Voltamos para casa com as lembranças e as histórias do que vivemos em terras uruguaias.